Prosa escrita

Espaço para que todos os interessados participem e contribuam com suas idéias a respeito dos mais variados assuntos,de maneira leve e descontraída.

“Sem passagem para Barcelona”, de Aberto Bresciani: da arte de brincar com o leitor

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Todos os elementos de Sem passagem para Barcelona, de Alberto Bresciani (Rio de Janeiro: José Olympio, 2015), são brinquedos. Do título às epígrafes, da imagem da capa às dedicatórias, do arranjo dos poemas às questões propostas, o poeta dispõe as peças de um jogo de desarmar o leitor: paradoxo e ironia, nonsense e humor negro, crítica e narrativa, poesia e realismo bruto.

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O tema da viagem, que o título promete e nega, permite a Bresciani provocar e incorporar à sua poesia elementos narrativos das mais variadas origens: prosa de ficção, crônica, science fiction, narrativa mítica, quadrinhos, teatro, cinema etc. Trata-se da narrativa que atravessa de forma oblíqua, descontínua, fragmentária, instável e, por vezes, incógnita a obra de vários poetas brasileiros contemporâneos – de Francisco Alvim a Thiago Mattos, de Eucanaã Ferraz a Daniel Mazza, de Edimilson de Almeida Pereira a Juliana Meira.

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Narrar uma viagem malograda: eis a tarefa que Bresciani se impõe. E desta forma, o que poderia ser o registro de um itinerário turístico por lugares amenos se converte numa aventura textual por terra desconhecida – a realidade contemporânea –, que o poeta nos apresenta conforme os acidentes do percurso e as forças amigas ou inamistosas que se manifestem na travessia.

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Enquanto narrativa de uma viagem imóvel e desprovida de qualquer vestígio trágico ou épico, Sem passagem para Barcelona se oferece como lugar privilegiado para a reflexão acerca do declínio do destino aventuroso do homem na cena contemporânea, na qual se tornou mero figurante do gran teatro del mundo, com seus movimentos retilíneos uniformes e seus enredos marcados pela impessoalidade, pela monotonia repetitiva, pelo rigoroso controle técnico do acaso. Daí que os experimentos lírico-narrativos de Bresciani tenham como personagens figuras entregues ao silêncio e à inércia, despojadas dos menores desejos, às voltas com uma espera vazia, mórbida e sem qualquer esperança, fatigadas por nada (ou porque cansa o trabalho de carregar qualquer coisa morta: a própria máscara, por exemplo).

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Não por acaso, em suas muitas figurações – dor, apatia, angústia, miséria, tédio, alheamento, vazio, suicídio etc. –, a morte parece ser o “atalho-algum” que se oferece como único destino aos personagens de Bresciani, sem engano ou salvação. Seja ritualística ou prosaica, seja secreta ou pública, a morte é o fantasma que assombra as entrelinhas dos poemas de Sem passagem para Barcelona, metáfora viva da condição humana na sociedade contemporânea. Sem questões nem vontade, alheios ao mundo e ao outro, descarnados de si próprios, privados até mesmo do desejo da fuga, à cata de lembranças que se esvaem junto a perguntas mofadas e sem respostas, muitos num só ninguém, tais personagens são exemplares dos “homens ocos” a que refere T. S. Eliot (The hollow men), incapazes de compartilhar qualquer experiência ou oferecer algum sentido aos acontecimentos do mundo.

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Na medida em que, de forma crua e cruel, a morte assombra, se imiscui e se pronuncia em cada verso de Sem passagem para Barcelona, Bresciani remete estrategicamente a uma questão muitas vezes silenciada pela cultura contemporânea – e assim resumida por Octavio Paz: “… uma civilização que nega a morte acaba por negar a vida” (O labirinto da solidão). Neste sentido, recolocar a morte na ordem do dia representa uma provocação existencial e política inarredável. De igual modo, as quase-narrativas do poeta não são apenas o testemunho do empobrecimento da experiência e do imaginário e do fim da arte de narrar. Trata-se de um modo singular e equívoco de resistência. Ao emprestar das formas narrativas apenas os seus elementos mais fundamentais, o que temos são arremedos de histórias, repletos de lacunas, equívocos, suspeitas, incógnitas, empecilhos. Cabe ao leitor preenchê-las com a carne (ainda que magra) da experiência e do imaginário, dar corpo aos esqueletos frágeis que o poeta nos oferece.

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A ironia da lírica de Bresciani, não poucas vezes próxima do humor negro, põe a nu os medos e a paralisia do homem contemporâneo. Como quem manipula um bisturi crítico e implacável, o poeta rasga (ou arranha ao menos) as ficções midiáticas que se tornaram o nosso pão diário de “realidade”. Porque o real produzido pelas imagens técnicas nos mantém à distância da matéria e dos acontecimentos do mundo, dos quais simulamos participar pelo consumo cotidiano, entre o pavor e o fascínio, das catástrofes mediatizadas (cataclismos naturais, atentados terroristas, crises econômicas etc.). Ao mesmo tempo, o pânico nos assalta sempre que algum movimento ou mudança ameaça o nosso estado de segurança, conformados que estamos à condição de reféns da inércia e do desconhecimento do real concreto.

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A narrativa de uma viagem malograda é a passagem que Bresciani nos oferece: passagem de ida para este tempo de indigência, para este lugar árido de sentidos, onde já estamos, embora nos falte olhos de ver. Pois somos nós o personagem que, incólume e estático, atravessa Sem passagem para Barcelona, reféns do paradoxo e do paroxismo da hiper-realidade cotidiana. Paradoxo de um real produzido com a promessa de tornar tudo visível e próximo quando apenas interdita as vias de acesso ao mundo e ao outro. Paroxismo de um terror imaginário que nos assombra com simulações programadas do caos, apenas para nos reenviar continuamente à cômoda ordenação técnica da sociedade, à segurança máxima de uma vida sem acasos. Neste cenário, o personagem sobrevive na medida em que também se produz como imagem sem tempo ou lugar, como máscara imóvel que adorna o vazio de sua existência, enquanto se exibe autônoma e feliz nas redes sociais. Salvar-se da vida pela aderência paralítica às imagens midiáticas: eis a estratégia fatal da nossa condição contemporânea. Tornamo-nos palavras de papel, signos vazios, personagens planos e secundários de um enredo alheio e sem data.

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Em suas brincadeiras com o leitor, Bresciani retoma pelo avesso o tema da viagem, empresta à poesia elementos narrativos que nela não funcionam como tais, multiplica personagens que são o mesmo e nenhum, repete à exaustão e com algumas poucas variações uma cena toda feita de tempos mortos e ações nulas. E assim denuncia o medo do vazio que nos acossa, mas não ousamos confessar, ainda quando esboçamos estratégias de fuga, a qual nunca se realiza porque nos falta a sabedoria ou o ímpeto necessários. Resolve-se este medo do vazio pela via da imagem e semelhança. Ou seja, nos esvaziamos até alcançar a mais pura aparência, nos produzimos como máscara fixa e obscena, capaz de ocultar a miséria da nossa experiência e do nosso imaginário.

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Como de qualquer brincadeira, também de Sem passagem para Barcelona pode-se aprender uma lição, a lição que parece ter acionado a própria escrita do livro: ainda que não tenha viagem alguma para contar, o poeta “faz diz escreve insiste”, a contrapelo das solicitações da inércia e do silêncio.

Amostra grátis: dois poemas de Alberto Bresciani

Post scriptum

As questões perderam espaço

a consistência e a fúria da vontade vaporizaram-se

entre um sopro e o movimento do inseto

Ontem e depois são quase iguais

ao erotismo infecundo do vidro

Um corte um tiro um grito? Não

Conceitos neutros isopor manchas antigas

esquecidas sobre a roupa igual

A verdade é que do choro (não direi pranto)

esperava resposta era um apelo

(chantagem contra o tempo estratégia

engano espera – naquela vida sim)

II

Faz muito morreu a máquina das lágrimas

Há um túnel – longo vazio

onde as perguntas mofam

Onde o dia a voz

quando se foi a métrica da fuga?

Atravesso ruas rios o sono

em busca de trapos objetos lembranças

quebradas nas dobras de antes

Posso ir e vir ouvir indie rock ler em francês

aprender novos sinais rever Allen

rir à beira do escândalo

fazer que está tudo bem

III

Mas fico

personagem fico

não choro mais

Das escolhas possíveis

I

Hamlet

seria feliz se deixasse de ser tão igual

a si mesmo ao seu pai trisavô ou

a seus antropoides ancestrais

abandonasse de vez os clichês

virasse a mesa

desse espaço aos desejos

fosse um louco atrás das visões

transcendentais

– o analista quer convencer –

Hamlet

parado parado parado

II

Ele ouve:

um deixou mulher e filhos foi à luta

com sua garota tatuada e depressa

se afogou no Pantanal

outra fugiu para a Argentina com o louro

estagiário e está só na casa de mil metros

quadrados sobre inúteis lençóis

os jornais afirmam que há

suicídios entre transexuais

III

Ele ouve:

destemperada gritava salmos no culto

enquanto ao marido reservava insultos

o homem arrumou a mala saiu no meio da noite

e mora em Palmas com a jovem frentista

criativo limpo elegante o advogado

não a convencia mas assim mesmo aceitava

até que a professora de dança

a abordou na academia

carreiras bem sucedidas não garantem alívio

no topo executivos costumam saltar

e se tornam músicos pintores poetas

performers ou ilusionistas

IV

Entre o inferno e o céu

suado ou sedento

como um cão sem dono

Hamlet

não sabe

Apenas segue

parado parado parado

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(*) Fernando Fiorese é poeta, escritor e ensaísta. Tem publicadas as seguintes obras: Um chão de presas fáceis (romance, a sair), Aconselho-te crueldade (contos, 2010), Um dia, o trem (poemas, 2008), Dicionário mínimo: poemas em prosa (2003), Murilo na cidade: os horizontes portáteis do mito (ensaio, 2003), Corpo portátil: 1986-2000 (reunião poética, 2002) e Trem e cinema: Buster Keaton on the railroad (ensaio, 1998). Mantém na internet o blog Corpo Portátil: http://corpoportatil.blogspot.com.br. Escreve uma vez por mês no Prosa Escrita.

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3 opiniões sobre ““Sem passagem para Barcelona”, de Aberto Bresciani: da arte de brincar com o leitor

  1. Gilson Dorico em disse:

    Leitura essencial…

    Curtido por 1 pessoa

  2. Adriane Garcia em disse:

    Amo também este livro. Alberto Bresciani é um poeta necessário, de uma literatura apurada e de voz própria. Gostei muito de seu modo de escrever a análise, privilegia nosso acompanhamento na leitura. Obrigada.

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  3. Bravo! O ensaio faz juz ao ensaiado: duas obras de arte que se somam!

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